Depois de um dia cansativo, desgastante e preocupante, resolvi fazer algo que pratico às vezes: Mudar de hábito. Tinha que ir no supermercado e optei por um diferente da minha rota. Não tinha nada de especial naquele estabelecimento, mas eu precisava de algo estimulante, talvez relaxante... e consegui.
Logo no primeiro corredor, um cliente me pergunta o significado da etiqueta, preços diferentes para atacado e varejo, e... rancho. Ele queria saber o que é rancho e eu expliquei, louco de faceiro por estar ajudando alguém. Começou bem a minha incursão pelo supermercado novo na minha rotina. Notei em seguida que os trabalhadores estavam animados, motivados, havia uma energia positiva no ar. Arrumações de prateleiras, deslocamento de mercadorias, filas na balança dos legumes, ou hortifruti como se chama modernamente.
E eu, distraído observando as posições dos produtos, quais marcas eu conhecia e quais eram novidade pra mim que nem notei a aproximação de um funcionário com uma bandeja de polenta frita, oferecendo aos clientes. Achei o máximo. Aquela polenta quentinha e crocante, hummm! E ainda milho que é a única farinha recomendada pelo médico pra não subir os triglicerídeos, tava tudo de bom a minha visita. Prometia. Eu notava que ia comprar mais do que planejara, tudo convergia para momentos agradáveis. Seguia meu passeio pela loja quando sou abordado novamente, desta vez por uma bonita e simpática moça com uma prancheta fazendo uma pesquisa sobre atendimento, impressões dos clientes e por aí afora. Como sou professor, fiquei respondendo e observando a forma de perguntar, as questões formuladas e acabei conversando gentilmente com a aluna de psicologia da URCAMP. Dei as informações com o máximo de fidelidade, colaborativo e torcendo pelo sucesso do empreendimento da minha interlocutora. No meio da entrevista, mais duas abordagens do moço da polenta, duas provinhas e eu estava pronto pro abate: comprei uma bandejinha de polenta frita e quentinha por 1,60. Os prazeres da vida ou são de graça ou são muito baratos, basta saber valorizá-los, pensei eu. Ao finalizar, a moça agradeceu e completou: - O senhor é muito simpático! Ganhei o dia, a semana, o mês, quiçá o ano todo com aquele gesto.
Cheguei a duas conclusões enquanto procurava disfarçar a minha cara de satisfação, com a boca nas orelhas, cheio de razão: Estou velho, portanto não represento perigo a uma menina de tenra idade. Ela tem certeza que eu encaro o elogio como ele foi concebido, sem segundas intenções. Outra: estou velho, a menina poderia ser minha filha e eu estava torcendo para que ela se desse bem no seu trabalho de faculdade, de empresa júnior. A relação é legítima, sincera e é apenas isso. Uma pessoa elogiando outra. Que bonito se gestos como esse fossem mais freqüentes. Custa tão pouco e dá um retorno tão grande. São momentos raros em que aproveitei e passei pro papel, pra que fique na lembrança e que meus amigos leiam também e compartilhem comigo. Faz bem fazer o bem.
Luís Fogaça
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
O garimpeiro moderno
Com a proximidade do verão se faz urgente tomar algumas providências como cortar grama da casa de praia, limpar e descartar objetos inservíveis. Foi o que fiz. Sacos grandes de lixo, tronco de bananeira e vasinhos com folhagens diversas ocuparam integralmente o porta malas do meu celtinha. Perguntei a outros moradores da redondeza onde eu poderia descartar aquele lixo e fui informado que há um lugar no Cassino especialmente projetado para este fim. -Que maravilha! -Pensei. Pois tanta gente, talvez por desconhecimento, joga lixo nos cômoros (ou combros, como muitos chamavam aquele montes de areia branca da beira da praia). Fui seguindo e perguntando, porque não é muito fácil chegar lá, a sinalização ainda deve estar sendo confeccionada.
Cheguei num imenso terreno com pilhas de material reciclável, um galpão que serve de sede para a associação e muitos avisos de proibido isso proibido aquilo. Fui indo e perguntando, cada um informando um trecho até que cheguei onde precisava chegar. Um lugar destinado a entulhos, restos de podas, galhos, móveis, utilidades e inutilidades diversas. Havia uma só pessoa no local, um senhor de chapéu à moda Indiana Jones, óculos bem escuros, botas, calças por dentro das botas e sua Bandeirante a Diesel ligada. Ele se aproximou e veio conversar comigo. Perguntou: -O que tem aí? E eu, assustado ainda com as placas de proibido isso proibido aquilo, disse-lhe que eram umas taquaras, restos de capim e plantas. O Suposto encarregado se aproximou mais um pouco e disse: - Que pena que estão com cupim, porque senão eu teria um destino pra elas. Pode colocar no terreno, junto dos outros galhos.
Neste momento me senti mais à vontade e agradeci, porque cheguei a pensar que era proibido colocar lixo no depósito de lixo, vai duvidar...
Comecei a descarregar meu carro tendo o cuidado de colocar junto com outros materiais semelhantes para manter a ordem que notei existir por ali. Enquanto trabalhava, conversei com o senhor que me recebeu e descobri que ele é um catador de coisas. Um verdadeiro cidadão politicamente correto, preocupado com a descartabilidade das coisas e disposto a fazer a parte dele na sociedade.
Tá vendo aqueles fios de telefone? Perguntou ele. Sim, havia rolos de fios de telefone provavelmente descartados por alguma instaladora. –Isto dá um belo varal de roupas. É forte, razoavelmente flexível e grosso o suficiente para que o prendedor firme a roupa. E de graça!
Tem razão o homem, que eu já comecei a admirar à medida que o conhecia. Essa câmara de ar- explicou ele- serve para eu fazer amarras para a carroceria da Toyota. Essas gavetas, eu levo para aproveitar os puxadores... E assim foi descrevendo tudo o que ele poderia fazer com cada tesouro que encontrava.
Que espetáculo! Vejo que essas atitudes são o futuro. As pessoas não precisam ter vergonha de pegar algo que alguém jogou fora. Estão, com gestos assim, ajudando o meio ambiente, o poder público, a sociedade em que vive. Então aplaudo o homem, me despeço enquanto ele fala sobre a atualidade, que as pessoas estão comprando coisas novas e jogando coisas boas no lixo e saio com a firme convicção que há esperança na humanidade. Contrariamente o que a mídia nos impõe nos noticiários, as pessoas pensam, agem e se preocupam com o futuro. Vale a pena lutar. Nossos filhos e netos e os filhos deles e seus netos merecem.
Cheguei num imenso terreno com pilhas de material reciclável, um galpão que serve de sede para a associação e muitos avisos de proibido isso proibido aquilo. Fui indo e perguntando, cada um informando um trecho até que cheguei onde precisava chegar. Um lugar destinado a entulhos, restos de podas, galhos, móveis, utilidades e inutilidades diversas. Havia uma só pessoa no local, um senhor de chapéu à moda Indiana Jones, óculos bem escuros, botas, calças por dentro das botas e sua Bandeirante a Diesel ligada. Ele se aproximou e veio conversar comigo. Perguntou: -O que tem aí? E eu, assustado ainda com as placas de proibido isso proibido aquilo, disse-lhe que eram umas taquaras, restos de capim e plantas. O Suposto encarregado se aproximou mais um pouco e disse: - Que pena que estão com cupim, porque senão eu teria um destino pra elas. Pode colocar no terreno, junto dos outros galhos.
Neste momento me senti mais à vontade e agradeci, porque cheguei a pensar que era proibido colocar lixo no depósito de lixo, vai duvidar...
Comecei a descarregar meu carro tendo o cuidado de colocar junto com outros materiais semelhantes para manter a ordem que notei existir por ali. Enquanto trabalhava, conversei com o senhor que me recebeu e descobri que ele é um catador de coisas. Um verdadeiro cidadão politicamente correto, preocupado com a descartabilidade das coisas e disposto a fazer a parte dele na sociedade.
Tá vendo aqueles fios de telefone? Perguntou ele. Sim, havia rolos de fios de telefone provavelmente descartados por alguma instaladora. –Isto dá um belo varal de roupas. É forte, razoavelmente flexível e grosso o suficiente para que o prendedor firme a roupa. E de graça!
Tem razão o homem, que eu já comecei a admirar à medida que o conhecia. Essa câmara de ar- explicou ele- serve para eu fazer amarras para a carroceria da Toyota. Essas gavetas, eu levo para aproveitar os puxadores... E assim foi descrevendo tudo o que ele poderia fazer com cada tesouro que encontrava.
Que espetáculo! Vejo que essas atitudes são o futuro. As pessoas não precisam ter vergonha de pegar algo que alguém jogou fora. Estão, com gestos assim, ajudando o meio ambiente, o poder público, a sociedade em que vive. Então aplaudo o homem, me despeço enquanto ele fala sobre a atualidade, que as pessoas estão comprando coisas novas e jogando coisas boas no lixo e saio com a firme convicção que há esperança na humanidade. Contrariamente o que a mídia nos impõe nos noticiários, as pessoas pensam, agem e se preocupam com o futuro. Vale a pena lutar. Nossos filhos e netos e os filhos deles e seus netos merecem.
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