quarta-feira, 24 de novembro de 2010

As quatro pedras

Não sou adepto de animais soltos, apesar de ser um fã de bichos em geral. Já tive peixes, pássaros, cachorros, isso sem contar com experiências científicas da juventude através da criações de minhocas, e até coleções de aranhas vivas, que eu alimentava com moscas sempre fresquinhas para deleite dos meus animaizinhos. Mas desta vez a coisa foi diferente.
Tudo começou quando um cachorro passou a me ameaçar sempre que eu me aproximava de casa, de moto. E, obviamente, quando partia, era ainda pior. O animal, aos latidos, vinha de encontro ao pneu traseiro da minha titan 125 e a cada dia se aproximava mais de meu calcanhar. O ruído do animal era um aviso, pois assim, meus ouvidos estavam me preparando para o momento em que o som pararia e eu sentisse a inevitável mordida na parte posterior da perna esquerda. E sou canhoto pra completar a minha particular tragédia. Aquilo me incomodou por dias. Bastava eu tirar a moto de casa, que a latição começava. Dava catraca e o motor ligava, com o conseqüente aumento da freqüência do ameaçante assédio canino.
Estava insuportável pra mim. Mudar de casa? Dormir num hotel? Pedir ajuda? O que faria para resolver a situação? Conversei com colegas, vizinhos e todos tinham um conselho diferente. Aqui em Bagé as coisas se resolvem de pronto. E assim decidi. Vou pedir para recolherem o animal que, além do todo o desconforto que vinha me causando, ainda parecia doente, com uma pata suspensa ao caminhar, precisando ele também de ajuda. E assim foi. Liguei para alguns números que me recomendaram até que fui atendido por uma funcionária da área de saúde, ou de zoonoses, se não me engano. Ao me queixar do animal que me ameaçava, a resposta foi curta e grossa com uma nova pergunta:
- O cachorro já lhe mordeu? Perguntou a zelosa funcionária pública municipal.
- Não. Respondi-lhe.
-Mas acredito que amanhã morderá, porque cada vez ele chega mais perto.
-Então não podemos fazer nada, respondeu a agente pública. Em primeiro lugar não recolhemos animais de rua e, se for constatado algum dano a um cidadão, precisamos de um boletim de ocorrência para comprovar.
- Como? Surpreendi-me. –Então, vocês que tem um problema agora vão esperar para ter dois problemas para depois agir?
- Dois problemas, argumentou a servidora. Porque dois problemas?
- Neste momento vocês tem um paciente, o cachorro. Depois da mordida terão dois: Eu e o cão. Não é muito pior?
Esse argumento foi forte e consegui que o pessoal se dispusesse, assim que fosse possível, passar no endereço indicado e dar uma olhada no bichinho, um collie jovem, mas de considerável tamanho, que eu insistira, estava aparentemente doente.
Não tendo visto movimento de veículos do poder público municipal, e continuando as sessões de latidos para todos que se aventuravam a passar por aquele trecho da rua, meu pavor levou-me a pensamentos digamos, mais efetivos como o confronto, por exemplo. Eu teria que assumir o que não consegui em outras épocas. Enfrentar o problema com as próprias mãos. Lutar, com as armas disponíveis, mãos, pés, paus, pedras ou o que estivesse ao meu alcance. Não é o meu forte, confesso. Sou pacífico e sem habilidades manuais, o que comprovei ao longo de minha tenra existência de 54 anos com conflitos domésticos, tentativas de domar e adestrar cachorros e gatos(!). As andanças a cavalo, quando o animal sempre me convencia a tomar o rumo que ele queria me deram a noção que não era o meu forte comandar. Todos os cavalos, potros, éguas, equinos em geral, sem exceção, foram meus, digamos, instrutores ou treinadores.
Agora era ele ou eu, até as últimas conseqüências. Estava decidido. Comecei mentalmente programar o confronto. Se eu impusesse respeito, o cão me reconheceria e jamais me atacaria novamente. Era uma terça feira, lembro bem. Saída do serviço, 17:30. Peguei a moto na Praça dos Esportes e fui em direção à casa que moro, perto da Santa Casa. O trajeto serviu para pensar e resolvi ir antes na padaria pegar um pão e porque não, pensar mais um pouco. Desviei o percurso para não passar na frente do meu endereço, evitando assim, um confronto não planejado que poderia colocar por terra meu projeto, por descuido.
Ao descer da moto, na sarjeta, juntei pedras de regular tamanho, que cabiam entre os dedos polegar e indicador. Quatro ao todo, encheram meus bolsos da jaqueta. Se houvesse violência, viria o revide por parte de mim. Mas o peso daquele arsenal me fez para por instantes e pensar: Eu sou racional, com 80 quilos de peso e vou enfrentar um animalzinho de 15 quilos, e ainda com pedras?
Não! Tenho que achar uma saída inteligente. Não sou igual a ele, se formos medir agilidade, ele certamente levará vantagem. Tenho que exercitar meu lado humano. O que poderia estar fazendo com que o animalzinho latisse desesperadamente ao ver uma moto se aproximando? O que teria causado os machucados do bichinho, não poderia ter sido atropelado por um veículo e , em reação instintiva latia a todos os que passavam fazendo um barulho semelhante? E se eu me aproximasse com o motor desligado, o que aconteceria?
Ao chegar na minha quadra, escolhi a parte alta da rua, que tem um declive até minha casa e assim fui de lá de cima até minha casa, de motor desligado, silenciosamente. O Collie, em vez de latir, ficou apenas me observando. Estava dando certo! Ele correu pra mim assim que parei e ficou apenas me observando. E eu, ainda desconfiado, rezando para que o ataque efetivamente não acontecesse. E assim foi. Feliz com minha vitória, cheguei à imediata conclusão que a inteligência venceu o instinto e que eu e o cão éramos vitoriosos, e poderíamos, por que não, ser amigos.
Entrei em casa deixando a porta aberta e ele ficou parado na rua me observando. Fui até a geladeira e escolhi presunto, queijo, um pouco de guisado de carne e aqueci um pouco. Dei num pote a ele, juntamente com uma vasilha com água. Que satisfação. O cão que me ameaçava comia o que eu lhe fornecia. Fiquei muito contente pela extensão dos resultados positivos que obtivera. Dia seguinte, ração comprada num pet shop e, a partir daí, todos os dias, ração ou comida que eu compartilhava com ele. Dias eu que eu não o encontrava quando vinha para casa sentia sua falta e, quando ele chegava perto da minha porta, começava a latir, como se tivesse me chamando. Eu abria a porta e ele pulava em mim e mordia suavemente minhas mãos em sinal de afeto. O rabo, abanando de satisfação. Um novo amigo. Descobri seu nome depois, Chama-se Scooby e foi adotado por uma vizinha. Sempre que me ouve conversando com a vizinhança, late se manifestando, como que dizendo:
-Estou aqui amigo!
Às vezes visito-o outras ele me visita quando estou na porta de casa. As pedras, as quatro pedras que não joguei, estão guardadas. E tem um significado muito especial para mim. Um dia em que venci minhas fraquezas com inteligência e sensibilidade. Pensei, enfrentei e consegui a vitória. Um resultado tipo Ganha-Ganha. O único resultado que se deve esperar de uma negociação.

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